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Atlântico: um novo corredor energético?

As notícias da morte geopolítica do Atlântico, em favor do Pacífico, poderão ser exageradas. Isto porque as maiores descobertas e crescimento de novos produtores de petróleo e gás situam-se no corredor Atlântico.

Vamos a factos. Primeiro, o Brasil. Está previsto que a Petrobras ultrapasse a Chevron na produção de petróleo em 2020 (como afirmou o CFO Barbassa em declarações à Forbes). Além disso, a empresa brasileira já é a oitava maior do mundo em termos de reservas de petróleo. Se às reservas de combustíveis fósseis, juntarmos a produção de biocombustível, o Brasil já é um ator por demais significativo na oferta energética de combustíveis líquidos e gasosos.

E se a este factor, aliarmos a crescente competência tecnológica da Petrobras na exploração petrolífera em águas ultra-profundas, estamos perante a emergência da potência energética hegemónica da América do Sul, que paulatinamente está a ultrapassar a PDVSA, ficando a Venezuela condicionada pela vontade de Brasília. Além disso, o Brasil é um produtor não alinhado com a OPEP.

Segundo, a África Ocidental, uma costa riquíssima em gás natural. Os maiores produtores desta fonte energética são a Nigéria e a Guiné-Equatorial. E, por sua vez, Angola é o terceiro maior produtor de petróleo da África Ocidental, liderando a Nigéria este ranking. Mas o território marítimo angolano também possui grandes quantidades de gás.

Com efeito, este conjunto de países tem planeado um portefólio de investimentos com vista a criar infra-estruturas de Gás Natural Liquefeito (GNL), o qual é transportado por via marítima. Além disso, os países desta faixa geográfica também ainda possuem um potencial inexplorado na produção de biocombustíveis sustentáveis.

Terceiro, o Ártico. O inevitável aquecimento global irá resultar no degelo da calota polar, desbravando novas rotas marítimas e novos territórios para exploração de recursos. Com efeito, é um processo já em curso na Gronelândia, cujas primeiras geoanálises mostram que será uma nova potência energética no século XXI. Atentos a esta tendência, estão a esgrimir-se disputas de direito internacional sobre a fronteira do Atlântico Norte com o Oceano Ártico entre a Noruega e a Rússia que serão críticas para a soberania sobre os recursos da plataforma submarina.

Ibéria possui 40% da capacidade europeia de GNL…

Quarto, a Península Ibérica. Cerca de 40% das infra-estruturas de armazenamento de GNL da Europa estão localizadas entre Portugal e Espanha. Isto não só significa que a Ibéria pode afirmar-se como um canal alternativo de abastecimento de gás natural para o centro da Europa, face à Rússia, mas também mitigar a extrema dependência energética do fornecimento via gasoduto da Argélia.

Além disso, o custo do recurso será potencialmente mais baixo, se for adquirido em mercado spot, dada a abundância existente no mercado (em virtude das reservas de gás de xisto dos EUA). Com efeito, poderá pensar-se na criação de um mercado spot de GNL na Península Ibérica, potenciando assim as excelentes condições de atracagem de navios de grande porte da costa portuguesa, em Sines, o porto com águas mais profundas da Europa.

…e os EUA querem libertar-se do Médio Oriente

Quinto, a vontade dos EUA em mitigar a dependência de petróleo e gás proveniente do Médio Oriente através de uma estratégia combinada de aumento da produção endógena (um exemplo é o gás de xisto) e da diversificação de importações de países localizados no Atlântico Sul.

Sinal desta nova orientação geopolítica dos EUA na área de energia é a criação do Bureau of Energy Resources, o organismo de diplomacia energética directamente ligado a Hillary Clinton. Dentro desta linha, ainda no capítulo do gás de xisto, convém notar que os EUA estão muito ativos na promoção da exploração do recurso na Polónia, de forma a mitigar a influência russa naquele país (orientação não seguida pela Alemanha, que tenta ilegalizar o shale gas na UE).

As cartadas geopolíticas da novas energias deep offshore…

Sexto, o potencial por explorar dos recursos energéticos não convencionais em águas ultraprofundas, como os hidratos de metano (gás natural contido dentro de gelo localizado nas profundezas submarinos). Segundo as análises recentes derivadas da Missão para a Extensão da Plataforma Continental Portuguesa, o nosso leito submarino é rico (o Japão vai começar perfurações experimentais no próximo ano).

Por outro lado, uma análise recente do World Energy Council, com base em informação da empresa Schumberger, também aponta um potencial significativo de reservas de shale gas no offshore português, quase equivalente aos valores da Europa Central. A par deste recursos, também existem informações sobre abundância de metais raros no fundo submarino português, muito importantes para a construção de equipamento de energias renováveis e de eficiência energética.

….e do alargamento do canal do Panamá

Sétimo, o alargamento do canal do Panamá previsto para conclusão em 2014, que permitirá a passagem de super-petroleiros e de navios-tanque de GNL. Esta rota poderá afirmar-se como uma excelente alternativa à rota do Indo-Pacífico para abastecimento de petróleo e gás à China, pois evita os chokepoints dos estreitos de Malaca e da Somália, chagados pela pirataria. Portugal possui aqui uma vantagem geoestratégica devido à sua localização geográfica e as já mencionadas condições de atracagem de águas profundas.

Face a este cenário, fica claro que a morte anunciada do Atlântico só irá acontecer se os políticos ocidentais assim o quiserem. A China está atenta a esta tendência. Não é por acaso que a estatal chinesa Sinopec está super-ativa no controlo de recursos na costa brasileira e na costa africana.

E aqui há uma janela de oportunidade única para a afirmação do espaço lusófono como uma importante rede de mercados críticos para a segurança energética da economia global, tanto na dimensão dos recursos como tecnológica. Portugal, em parceria com Brasil e Angola, deveria promover esta visão estratégica através da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Ruben Eiras

É responsável pelas Relações Sistema Científico da Galp Energia. Licenciado em Sociologia do Trabalho. Tem um Mestrado Executivo Sistemas Sustentáveis de Energia do MIT-Portugal. É doutorando em Política de Segurança Energética – Cooperação Portugal-Brasil, pelo ISCTE-IUL e pela Academia Militar, na área de História, Defesa e Relações Internacionais. É membro do Grupo de Estudos «Brasil e o Atlântico», do Instituto de Defesa Nacional. Pode ser contactado em reiras@gmail.com

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2 Comentários

  1. J. A. Barreira says:

    Saiu hoje uma notícia a informar que o Japão descobriu hidratos de metano (gás natural em águas profundas) suficiente para o seu abastecimento durante 100 anos. …..Lá se vai a hegemonia atlântica da produção de gás natural…..

  2. Jorge Bravo says:

    Pois é, voltamos ao atlantico e por via da energia á ocidental praia lusitana, talvez agora se volte a acreditar que Portugal tem uma posição geoestratégica relevante.
    Em boa verdade nunca perdeu essa posição, só que alguns de frequentemente perdem os referenciais.

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