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Alain Bauer: “O cibercrime ainda está para vir…”

Bauer no seu bureau

O crime ama a ordem e não a desordem pois o crime organizado, para funcionar, precisa de calma. Mas se a crise económica fizer baixar “os recursos financeiros para os serviços de polícia, de segurança e de informação”, levando a uma menor pressão das forças de segurança no espaço público, aí teremos “uma abertura de zonas mais facilmente acessíveis ao crime organizado” e, portanto, mais insegurança. Foi pela relação entre a crise económica e a (in)segurança que começou esta entrevista com Alain Bauer. Outros temas actuais da segurança urbana e da cibersegurança apareceram no decorrer da conversa: as dificuldades de inserção das “segundas gerações”, guetizadas em zonas periféricas, como resolver os problemas da delinquência em “zonas de não-direito”, que surgem na periferia das grandes cidades, e last but not least o chamado “cibercrime” que controla, por exemplo, apostas online, com viciação de resultados desportivos à medida do que for preciso. Mas, para Alain Bauer, “o cibercrime ainda está para vir, ainda está à nossa frente”. Explicação: “O verdadeiro risco hoje não está tanto no crime mas sim na estupidez e na inconsciência de informáticos que, ao mesmo tempo que nos dizem que é preciso proteger-se com antí-vírus, nos propõem meter todos os nossos dados na ‘cloud’”… O verdadeiro problema hoje é, portanto, a incoerência e a esquizofrenia dos vendedores de software de protecção dos nossos computadores que são os mesmos que nos vendem a “cloud”. Este é o verdadeiro e grande assunto que está para chegar e é este que o crime tomará em conta”. Entrevista:

IE – O senhor é um grande especialista europeu na área da criminologia, cujos problemas actuais, em França e na Europa, estudou como ninguém os estudara antes. Nesta conjuntura estratégica de profunda crise económica na Europa, muita gente se pergunta se a esta crise económica se poderá ainda acrescentar uma crise de segurança.

Alain Bauer – As organizações criminosas existiam na Grécia antes deste problema da dívida, enriqueceram-se com a dívida, como aconteceu durante os Jogos Olímpicos, que foram momentos em que as organizações ligadas ao crime aproveitaram os investimentos massivos que então tiveram lugar. Claro, a crise aproveita ao crime, a crise é um “booster” do crime. Os criminosos nunca perdem dinheiro, ou não ganham ou ganham imenso, mas nunca perdem.

Segundo elemento, a crise tem repercussões sociais e estas podem traduzir-se em motins e agitação. E aqui há uma preocupação, mas que não está ligada ao crime organizado. Aliás, o crime organizado para funcionar precisa de calma. Motins e violência urbana são maus para o “negócio”. Portanto, regra geral, num ou noutro momento, o crime intervém para repôr a calma. Isto é importante: o crime ama a ordem, não a desordem.

Terceiro elemento, efeito da crise da dívida em termos de finanças públicas, há uma baixa dos recursos financeiros para os serviços de polícia, de segurança e de informação. E aqui abre-se talvez um espaço, pois uma menor pressão das forças de segurança no espaço público pode levar, de facto, à abertura de zonas mais facilmente acessíveis ao crime organizado, neste caso o crime organizado de pequenos grupos violentos, agressivos, praticando o roubo por esticão e outras agressões. O grande crime segue isto. Simultaneamente com interesse no desenvolvimento destas “start-ups” e preocupado que a coisa não degenere demasiado, porque nesse caso a reacção social seria muito violenta. E já vivemos esses  episódios durante a crise económica de 75 nos EUA ou na crise de 29 que se traduziu num aumento dos roubos e uma baixa muito importante das violências físicas.

Portanto, as coisas são raramente como as imaginamos. É preciso ter cuidado com os “à prioris”, porque a ciência dá-nos resultados que são o inverso daquilo que acreditamos. Temos de ser prudentes porque há aqui efeitos compósitos e complicados.

A conversa com Alain Bauer decorreu durante o Congresso Luso-Francófono sobre Criminalidade, organizado pelo OSCOT, na Universidade Lusíada.

Retomando o que acaba de dizer sobre violência dos pequenos bandos, vemos aparecer, em certas cidades e regiões da Europa, o que já se chama de “zonas cinzentas”, de facto zonas de não-direito e territórios onde o Estado deixa de poder intervir, zonas que ficam fora do controlo do Estado e com fortes ligações económicas a todo o tipo de tráficos, mais ou menos globais. Este problema, do seu ponto de vista, como é que vai evoluir, como é que o podemos gerir… Em Lisboa, o problema começa a colocar-se nas periferias da cidade. Em Paris, ele está muito mais “evoluído”, num estado já mais avançado. Aqui, ainda o conhecemos mal e temos muito pouca experiência da matéria, daí a minha pergunta sobre como é que acha que isto se pode gerir…

Pode-se gerir, em geral, evitando que ele degenere. Nós temos em França um exemplo de toda uma zona, o departamento de Seine Saint-Denis, que é uma zona de relegação, de segregação e que está a tornar-se uma zona de secessão. Quer dizer, um processo marcado pelo facto de este ser o departamento mais jovem, mais pobre e mais multi-étnico, o mais dinâmico e ao mesmo tempo o mais marcado pela crise e pelo desemprego. Portanto, quando se concentram num pequeno território todos os componentes químicos que permitem fazer explodir uma bomba, ela explode. É um processo químico simples.

Quando estamos numa fase intermédia ou estamos em espaços comunitarizados, como em Inglaterra ou nos EUA, adaptamos as políticas públicas à comunitarização. Ou então estamos numa lógica de Estado central que não reconhece a comunitarização e aí estamos numa fase de afrontamento em que o único meio é estar muito presente com redes e dispositivos sociais contra a exclusão, para criar uma zona-tampão, de modo a não ser a polícia a opôr-se frontalmente à população, mas a comunidade a criar as condições para que as coisas funcionem. Nós temos estas experiências em França com casos de confrontos muito duros, mas em que o sistema de compensações internas,  de diálogo permantente, de capacidade de intervenção permitiram resolver problemas. Portanto, há dispositivos que funcionam e o que temos de ter presente é que não há soluções “pronto-a-vestir”. Nenhum dispositivo funciona se fizermos “copy-paste”. É preciso adaptarmo-nos sempre às situações locais, às origens da população, à juventude da população, às problemáticas económicas e sociais e, em geral, em três em cada quatro casos isto funciona. Não funciona sempre, mas funciona mais que o resto.

Aqui, nos bairros periféricos de Lisboa, temos uma população de origem africana. E o que é mais interessante é que não é a primeira geração a colocar este tipo de problemáticas, mas a segunda e até a terceira, já nascidas em Portugal…

Eh… Claro! É normal, porque estão num conflito entre as suas questões de origem, de que “acusam” os pais de os terem privado, e a cultura do país, porque apesar de tudo mesmo se nasceram aqui… Aqui vigora o “direito do solo”…?

Sim, é o “direito do solo”.

Bom… mesmo se nasceram portugueses, sabem que serão sempre mais escuros, mais “morenos”, mais discriminados que outros. O que não é uma desculpa, mas é um facto. Deste modo,  estão sempre em situação de conflito, entre duas margens, no meio do Tejo e sem pontes. Esta é a sua dificuldade e o que eles exprimem. Em geral, isto afecta mais os rapazes, porque as raparigas, ao contrário, conseguem a sua integração na sociedade.

Para elas é um passo em frente…

Estamos de acordo. Portanto, é um clássico que funciona sempre da mesma maneira, pelo menos nos Estados com o “direito do solo”, nos Estados de “direito do sangue” é muito diferente porque não há promessa de integração. Eles dizem-lhe que é estrangeiro, que nasceu estrangeiro e continuará estrangeiro. Paradoxalmente, é mais simples. Nada de promessas, nada de reinvindicações. Por exemplo, na Alemanha não existem estes fenómenos. Há fenómenos de comunitarização (Turcos, Vietnamitas etc.), mas não há a promessa da nacionalidade, portanto não há a promessa de direitos, daí não haver o confronto com o Estado por este falhar nas suas promessas, mesmo se em todo o caso, efectivamente, eles são menos bem tratados que outros… Falamos sobretudo dos rapazes. As raparigas, ao contrário, procuram usar a inserção como instrumento de libertação e emancipação.

Aqui, em Portugal, o “direito do solo” dá automaticamente a nacionalidade…

Sim, sim, como em França… Mas é uma das curiosidades do sistema, o “direito do solo” cria direitos que é muito difícil respeitar, enquanto o “direito do sangue”, não criando direitos, não gera expectativas.

Esta segunda e terceira geração reivindicam-se de uma cultura africana muito inspirada de filmes americanos que são o seu quase único ‘contacto’ com essa realidade…

Claro, não há filmes dos países de origem dos pais. A grande diferença é que vocês aqui não têm a polícia americana…

As grandes cidades, as grandes metrópoles, hoje têm também outros problemas de segurança. Na sua opinião quais são os grandes problemas de segurança com que se confrontam as grandes cidades da Europa?

Primeiro, a análise do território. Porque o território não é já o centro da cidade, o território é a aglomeração, é a “bacia” dos transportes. Assim, a “bacia” da delinquência é móvel. Os atentados contra a propriedade são espaços de predação, os atentados contra as pessoas são controlo do território, portanto, os fenómenos são ambivalentes e, por vezes, contraditórios. Em segundo lugar, saber contra o que se luta. Luta-se contra a deliquência visível, a deliquência violenta ou a deliquência estruturada. São três fenómenos que é preciso tomar em conta de uma maneira específica. E tal como não há apenas uma delinquência, tão pouco há apenas uma maneira de responder à delinquência. É preciso uma adaptação a estes processos…

O nosso problema é que gostamos das coisas simples, mas a criminalidade é tudo menos simples. Ela tem territórios, modos operatórios, autores, actores e vítimas que é preciso tomar em consideração. E, quando o fazemos, temos uma política por dispositivos, fazemos hierarquias de prioridades e, em função das prioridades, temos resultados. Quando nos ocupamos de um assunto ele começa, primeiro,  a agravar-se. É mecânico. Num segundo tempo, ele estabiliza-se e, num terceiro, irá melhorar.  Mas é preciso aceitar o principio do “tempo necessário” e da mecânica necessária para resolver o problema. Em seguida, o problema desloca-se. Seja porque muda o seu modo operatório ou porque muda de território. Mas é a vida… o crime é a vida.

Alain Bauer com Nicolas Sarkozy, fotografado pelo L'Express

E ele deslocalizou-se para outro lado…  É natural!

Deslocalizou-se e agravou-se…

É normal… Em geral, é preciso escolher o território para onde ele se irá deslocalizar. É o que chamamos a gestão das saídas. Isso é um problema de cartografia criminal e de ordenamento urbano, mas é por isto que é preciso que todas as dimensões sejam tidas em conta, a social, a urbanística e a securitária. Não nos podemos reduzir a um pequeno espaço, isso nunca funciona.

Foi o que aqui se fez, reduzir o problema ao seu pequeno espaço…

E, de certeza, isso não funcionou!

Não… Um último tema, sobre uma matéria bem sua conhecida, o cibercrime, posto que já elaborou alguns relatórios de perito sobre a matéria…

Para o Governo francês, para o Ministério das Finanças…

O ciberespaço tornou-se um alto lugar do crime, gerador de grandes receitas para as máfias, não só nos modos mais conhecidos de desvio de informação, como também no próprio controlo dos jogos online, das apostas online (com viciação de resultados à medida do necessário), como é que equaciona este problema que não tem tido grande atenção dos decisores políticos, pelo menos aqui em Portugal?

Há uma invenção mediática que põe um problema, discute-se a aparência e não da realidade. Primeiro, não há cibercrime. O cibercrime é a velha escroqueria mais a tecnologia. Roubar números de cartão de crédito ou documentos de identidade, tudo isto é tão velho como o crime. O que temos aqui é, portanto, o bom velho crime mais a nova tecnologia. O cibercrime não abriu até agora senão muito poucas operações… Hoje, o cibercrime ainda está para vir, ainda está à nossa frente. Mas, ao mesmo tempo em que se fala de cibercrime, propõem-nos a “cloud”. Ora, a “cloud” é a destruição dos dados. O verdadeiro risco hoje não está tanto no crime mas sim na estupidez e na inconsciência de informáticos que, ao mesmo tempo que vos dizem que é preciso protegerem-se com antí-vírus, vos propõem meter todos os vossos dados numa “nuvem”… Ora, a “cloud” já não vos pertence, o que está na “cloud” já não vos pertence! Não se poderá encontrar mais algo que aí desapareça ou seja desviado. O verdadeiro problema é que no seu computador, mesmo que lhe introduzam um  vírus, em geral, consegue reencontrar e recuperar alguma coisa no disco rígido. Sem o disco rígido o que é que recupera? Nada de nada! O verdadeiro problema hoje é a incoerência e a esquizofrenia entre os vendedores de software de protecção dos nossos computadores que são os mesmos que nos vendem a “cloud”. Este é o verdadeiro e grande assunto que está para chegar e é este que o crime tomará em conta.    

Quem É Alain Bauer

Alain Bauer (n.1962, Paris) é criminólogo especialista das questões de segurança urbana. Foi Grão-Mestre do Grande Oriente de França,  de 2000 a 2003. É autor de uma trintena de obras sobre a franco-maçonaria e de uma quarantena sobre a  criminalidade. É consultor do Presidente de França para as questões de segurança e de terrorismo, tal como já o tinha sido para ministros do Interior, desde o tempo de Jean-Pierre Chevènement. Foi também assessor do primeiro-ministro Michel Rocard  para as questões de Segurança.

Alain Bauer ensinou, primeiro, no ‘Institut d’études politiques de Paris e em seguida no Institut de criminologie. Hoje, é professor nas universidades de Paris I et Paris V, bem como na EOGN École des officiers de la gendarmerie nationale, na ENM École nationale de la magistrature e na ENSP École nationale supérieure de la police. Desde Março 2009, é titular da cátedra de Criminologia do Conservatoire national des arts et métiers. Foi membro do conselho de administração do Institut de relations internationales et stratégiques (IRIS) até final de 2009.

Ensina ainda no John Jay College of Criminal Justice de New York e na universidade de Direito de Pékin e é conselheiro da polícia de Nova Iorque, da Sûreté du Québec e do Los Angeles Sheriff Department. Como perito estrangeiro, Bauer foi igualmente convocado pela comissão responsável pelo estudo do terrorismo interno nos Estados Unidos, em Agosto 2007.

Os seus cargos executivos oficiais hoje são:

• Professeur titulaire de la Chaire de Criminologie du Conservatoire National des Arts et Métiers
(depuis 2009),

• Président de la mission de préfiguration du Conseil National des Activités Privées de Sécurité – CNAPS (2011), élu Président du CNAPS (depuis 2012)

• Co-Président de la mission sur le livre blanc de la sécurité publique (2010-2011),

• Président du Conseil Supérieur de la Formation et de la Recherche Stratégiques (depuis décembre 2009),

• Président du Groupe de travail sur les fichiers du Ministère de la Justice (2010),

• Président du Groupe de travail sur les fichiers des douanes (2009-2010),

• Président du Groupe de travail puis de contrôle des fichiers de police (depuis 2006),

• Rapporteur du Groupe de travail sur la police au quotidien (2007),

• Président du conseil d’orientation de l’Observatoire national de la délinquance (depuis 2003)
puis de l’Observatoire national de la délinquance et des réponses pénales (depuis 2010),

• Vice-président de Francopol (depuis 2009),

E, depois de tudo isto, ainda lhe resta tempo para ser um grande apreciador e perito de… gastronomia!

 

 

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