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A ‘Operação Mali’ Revela Um Novo Quadro Estratégico

A “operação Mali” é, talvez muito mais que a Líbia, reveladora de aspectos decisivos do novo quadro estratégico que está a impor-se rapidamente. Coloca mesmo em clara perspectiva e relevante destaque algumas novas realidades que ninguém pode ignorar. E também confirma outras mais antigas. Questões sobre a capacidade estratégica da Europa, sobre o “isolacionismo” alemão ou a posição estratégica têm uma boa resposta nesta “operação Mali”. O que aqui se revela é afirmação de um novo quadro estratégico.

“Goodbye and good luck”, disseram os Estados Unidos, pela primeira vez desde a II Guerra. É um “goodbye” relativo, claro. Mas é um aviso claro de “façam vocês mesmo que nós ajudamos mas não fazemos”. Na Líbia, uma operação franco-inglesa, os Estados Unidos ainda disseram que,  apesar de não estarem nas linhas da frente, tinham uma posição de “lead from behind”… No Mali, não. Não adoptam tal posição, estão, sim, no que Zaki Laidi chamou de “following from above”.

Na Líbia, como refere Zaki Laidi, “ce sont bel et bien les États-Unis qui ont assuré 75 % du renseignement, de la surveillance et de la reconnaissance, 75 % du ravitaillement en vol et 90% du ciblage.” Ou seja, asseguraram as condições necessárias e imprescindíveis ao sucesso da  intervenção franco-inglesa. No Mali, mantem-se muito (ou talvez tudo…) desta ajuda mas, para além do aviso (entregue em mão por Leon Panetta na sua recente deslocação a várias capitais europeias, Lisboa incluída), um outro “pormenor”, absolutamnete inédito nas relações transatlânticas, veio mostrar que os EUA deixaram de ter a Europa e seus problemas entre as suas prioridades (agora viradas para o Pacífico e para a ameaça chinesa). Washington chegou a referir a Paris que o uso dos aviões americanos teria de ser pago… A hipótese acabou por ser abandonada mas é algo nunca visto e bem revelador da nova posição americana.

Zaki Laid explica muito claramente como os americanos estão a colocar a Europa perante a sua impotência estratégica, devido a terem mudado as prioridades de Washington: “l’administration Obama, soumise à des contraintes budgétaires croissantes, a clairement décidé de sacrifier une partie de ses forces terrestres pour maintenir intacte sa capacité de projection substantielle dans les airs et sur les mers. Et cela afin de pouvoir contenir la Chine. La conséquence de cet arbitrage est d’accentuer le tournant réaliste de la politique étrangère américaine, pour qui désormais seules sont recevables les interventions mettant directement en jeu ses intérêts immédiats. Dans les autres cas, il appartiendra aux alliés des États-Unis de faire la preuve de leur engagement pour pouvoir bénéficier le cas échéant de son soutien conditionnel”. Nick Witney diz o mesmo mas numa linguagem mais terra-a-terra, “the U.S. is switching its strategic focus to the Pacific; in the future, Europeans will have to do more fending for themselves”. 

O mesmo Nick Witney vê na “operação Mali” mais um caso de desaparecimento da Europa, “Missing in action, again”, diz ele… Fifteen years ago the EU resolved to equip itself with the capacity for collective crisis-management operations, particularly in its own backyard. But almost always the union has contented itself with coming in behind once the situation has been stabilized by someone else. In Mali, as in Libya, Brussels has once again fumbled the chance to draw on its collective defense capacities to play a leading role.” A análise de Zaki Laidi é coincidente. O Mali vem “confirmer une fois de plus l’insignifiance stratégique de l’Union européenne, qui parle de stratégie globale à propos du Mali pour mieux évacuer la question militaire”. Laiki releva também o que aqui no ‘IE’ já tinhamos apontado como “Europa ou o suicídio pelo desinvestimento na Defesa”: “L’aversion pour la guerre – escreve ele – est un des risques les plus graves encourus actuellement par l’Union Européenne”.

Mas se o Mali veio confirmar “la capacité de la France à s’imposer comme le premier acteur stratégique européen”, também confirmou algo já visto na Líbia e também várias vezes antes: a capacidade da Alemanha para se pôr de parte quando as coisas aquecem… E, se no caso da Líbia isso tinha deixado europeus e outros aliados muito irritados, a repetição do “joguinho” alemão agora no Mali tem obviamente consequências políticas. Há mesmo quem sublinhe que mesmo Putine teve uma posição mais activa e colaborante do que Merkel… Para Zaki Laidi, que o escreve com todas as letras, o caso do Mali vai obrigar a França a recolocar “la question de la force militaire à ses alliés européens. On sait que Madame Merkel reproche à la France de ne pas être enthousiaste pour son projet d’union politique. Mais comment faire l’Europe avec des Etats qui détournent la tête dès que l’on parle d’usage de la force tout en admettant presque cyniquement que la France défend au Mali l’Europe dans son ensemble ? La France doit désormais considérer que la question du recours à la force doit devenir un préalable à toute négociation sur l’intégration politique du continent”. 

Se ainda não o sabiam, os europeus descobrem agora com a “operação Mali” que há um novo quadro estratégico e que, apesar de manterem amigos, estão por conta própria…

Following from above

Zaki Laïdi

Missing in Action Again: The European Union and Mali

Nick Witney | Briefing

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