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CEO Lusófono: Portugal, a Europa e a Lusofonia



 
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O canto da sereia do pangermanismo

 

Sem certeza alguma, políticos, economistas de serviço, comentadores inflamados e pequenos filósofos em geral, ainda se sustentam na perenidade da filosofia alemã, partilhando a falsa convicção, proclamada a partir dos finais do século XIX, da superioridade germânica, que conduziu a Alemanha por duas vezes no século passado, em razão do cumprimento da sua missão providencial ao holocausto.

Naquela época, o poderio industrial da Alemanha permitia-lhe praticar o imperialismo económico a uma escala mundial, com a sua política externa a assegurar-lhe um lugar ao sol. A Alemanha procurava, então, estender-se a toda a Europa estabelecendo protetorados, bem como possuir colónias em África e demarcar novas zonas de influência. Estes planos estão publicados.
Na Igreja reformada, o teólogo Paul Lagarde defende a integração dos Vosges e do Luxemburgo, bem como, a imposição de um protetorado aos húngaros e aos eslavos que viviam sob o domínio dos Habsburgo e, finalmente repelir os russos para a Ásia.

Constantin Frantz defende, por sua vez, a tomada do Condado de França, a Borgonha e a Saboia. Uma Liga pangermanista, Der allgemeine deutsche Verband, é constituída em 1891 para reunir num único Reich todos os alemães que vivem fora das fronteiras.

Em 1899, uma nova associação, Deutscher Ostmark Verein, usa as iniciais dos seus fundadores, Hansemann, Kennemann, Tiedemann, H.K.T., para definir a nova doutrina, o Hakatismo, que pretende fazer lembrar aos Prussianos o seu dever histórico; rejeitando a Rússia, no longínquo leste, e a confinação da França ao seu canto no maciço central europeu.

Substituindo a raça pelas nacionalidades, as teorias racistas inflamam ainda mais o pangermanismo, convencendo os alemães a criar uma religião própria germânica; defende-se a criação de um partido nacional alemão, que englobe os alemães da Áustria, e destrua os germes da infeção que o judaísmo e o cristianismo depositaram no pensamento germânico. Sugere-se o regresso a Wotan e aos alvores da época áurea dos povos do Norte.

A cultura e a ciência alemã são proclamadas superiores a todas as outras, mas é pela história, a filosofia e a música que o frenesim nacionalista e pangermanista espera a adesão do povo alemão. Se os historiadores, entusiastas da erudição, se perdem em detalhes ou pormenores sem importância, assumem-se, no entanto, contra a revolução francesa e a França, proclamando a glória da nação germânica que pretendem erguer sobre todos os povos, Deutschland uber Alles.

No plano da ação, a Prússia apresenta-se como a incarnação das virtudes germânicas e as suas instituições como um modelo: o exército deverá constituir o instrumento de formação do povo. O poder da coroa imperial é exaltado, reúnem-se argumentos a favor do imperialismo, relevando a guerra como geradora das virtudes alemãs. Nietzsche, também ele, é utilizado em benefício da causa pangermanista, quando de facto condenava o racismo e se recusava a ver nos alemães uma raça privilegiada.

Exprimia, aliás, o seu desconsolo perante o materialismo burguês. O seu desprezo por uma classe de novos-ricos que aspiram a vender mais do que a pensar é bem patente nos seus textos. Indignara-se por ver uma nação abandonada a um estilo de vida agarrado à mecanização e ao conforto, cuja mediocridade espiritual, por se tornar um alibi, encontrava refúgio no indeciso pensamento goethiano. Condenava, por isso, a prosperidade bismarckiana, estreita e sem alma. Acreditava que se podia fazer parar a decadência, voltando aos fundamentos da via espiritual, numa perspetiva de dissolução teleológica e retornista, em que super-homens com vontade de poder transformariam o mundo. Os seus compatriotas compreenderam-no mal, quando consideraram que era somente da sua raça que podiam brotar esses mestres do universo.

Mas foi através da música que o povo alemão atingiu o cume. Não somente a obra de Wagner evocava todas as potências da natureza, da tempestade e da bonança, mas era um hino ao glorioso passado germânico. Ela afastava a juventude das tentações do mundo greco-romano, e através dos seus dramas, a sua encenação, as suas profundas harmonias, o alemão reencontrava os seus deuses, atormentados como ele, sentindo-se animado por um imenso enleio romântico: a sedutora aliança entre o sentimentalismo e as mercancias, entre a melodia e o estrondo das armas. O mais industrializado dos povos revivificava-se com os seus mitos ancestrais. A estreia em Bayreuth da grande encenação wagneriana de O Anel de Nibelungo, em 1876, suscitou um imenso entusiasmo. Foi a festa do pangermanismo.

Mais tarde com o advento do nazismo e a entronização de Hitler, após a morte de Hidenburg, e quando concentrou em si todos os poderes, ainda se verificou num primeiro momento, alguma resistência das comunidades, das Igrejas e do próprio exército, paradoxalmente menos dos partidos e dos sindicatos. Os militares, aliás, seguiam o seu avanço com circunspeção, sabendo da ambição de Hitler, faziam valer a importância da sua missão, onde, em última instância, repousaria a soberania.

Receando ser eliminadas, as Igrejas católica e protestante, que tinham condenado o materialismo nacional-socialista, ficaram satisfeitas, porém, com algumas medidas antimaçónicas. Mas a sua posição via-se paulatinamente cercada. Na perspetiva universalista do seu projeto, o nazismo entendia que o catolicismo deveria germanizar-se, virilizar-se, libertar-se de uma certa tendência para a piedade que fazia dele uma religião dos fracos e, tornar-se num cristianismo «positivo».

Insultado, qualificado de feiticeiro, o papa Pio XI aguardará por 1937 para denunciar na sua encíclica Mit brennender Sorge, Com Preocupação ardente, a primeira escrita em alemão, a situação da Igreja católica no Reich e as heresias do nacional-socialismo, bem como, a lei que autorizava a esterilização dos doentes e dos inválidos, a qual fere o dogma cristão que considera sagrado o direito à vida, por ser o que mais aproxima o homem de Deus.
As Igrejas protestantes foram também submetidas à mesma pressão. No entanto, encontram-se mais manifestações de aproximação do que de rutura com o Reich. Veja-se por exemplo a criação da «Federação dos cristãos alemães» por pastores alemães que devia preparar a fundação de uma Igreja alemã estritamente associada ao Estado nacional-socialista, unida no seu peito, porque o «próximo é só feito de alemães», que com a substituição do Cristo mártir por um Cristo heroico, lhes permite fazer subtis associações entre a cruz gamada e a cruz cristã, o messianismo do Cristo e o do Führer: se os nazis tivessem ganho a guerra, o misterioso Heilscher e o seu devotado Haushofer bem poderiam ter-se tornado os altos sacerdotes de uma nova religião mundial, substituindo a Cruz pela suástica.

O pastor Niemoller, por exemplo, respondendo a este desafio cria uma Igreja puramente confessional, Die bekennende Kirche, que reunia numerosos pastores e fiéis.

Somente, uma pequena minoria de padres e pastores tomaram a atitude de se opor ao triunfo do nazismo.

O conflito durou cinco anos, mas desta última feita mundializou-se em diversos palcos, Europa, Rússia, mares Atlântico e Pacífico. É, agora, interessante notar que Haushofer, bem como, Warter Schellenberg, que passou diversas vezes por Lisboa e Dakar, haviam considerado, felizmente contracorrente, que a Alemanha teria tido muito maior vantagem em direcionar-se, invadindo estrategicamente o Ocidente e os seus portos; Península Ibérica e Senegal na costa ocidental de África, em vez da invasão da União Soviética.

No final, o resultado foi a destruição e o holocausto nunca visto, com mais de vinte e cinco milhões de mortos.

Vencida duas vezes pela força das armas, a Alemanha foi, no entanto, sendo prevalecente nas ideias e no pensamento filosófico; para se reunificar primeiro, para federar depois a Europa, numa entente com a França: o projeto é este.

O processo de acumulação de capital de um lado e a rápida emergência dos sofisticados mecanismos do capitalismo financeiro que espoletaram com a crise de 2007 puseram contudo a nu as profundas clivagens entre o Norte e o Sul da Europa. As economias do sul foram dirigidas para acentuar as suas fragilidades, não conseguindo resistir ao tsunami; sendo que, a França passará na próxima fase a ser de novo o alvo, ao não conseguir ser o garante e a salvaguarda daqueles e, a deixar cair o modelo social europeu, como se verá, depois das próximas eleições europeias.

Nada ficará como dantes, avizinhando-se tempos de grande turbulência na Europa.

 

  • Que Alternativa?

Na atual conjuntura e face aos problemas que tinha de enfrentar desde o começo do seu mandato, Hollande abdicou. Começou por assinar o «tratado orçamental» imposto por Merkel, quando em campanha se tinha comprometido a exigir a sua negociação. Foi o primeiro sinal de capitulação, tornando claro a sua desistência estratégica.

Agora de forma desajustada Hollande recorre às desacreditadas teorias do século XIX de Jean-Baptiste Say sobre a oferta e a procura. Na teoria económica a doutrina que prevalece é a teoria dos rendimentos decrescentes de David Ricardo, que tem plena aplicação na era da globalização, sendo ser certo que se conjuga acessoriamente, com o just in place, just in time, porque o fator transporte tem importância, dependendo do valor intrínseco dos produtos.

Não é, por isso, possível numa economia globalizada alguém defender o «socialismo da oferta», como o fez ainda recentemente Hollande numa conferência de imprensa no início deste ano, que serviu para confundir, em nada se distinguindo das políticas neoliberais de Merkel, consistentes com o individualismo, na melhor aceção «pangermanista», travestida de federalismo, em que a Europa se vai diluindo, numa linha estratégica oculta que lhe vai sair caro. Segundo momento da capitulação da França.

Aí estão de novo as teorias do espaço vital, basta dar alguns exemplos; a Irlanda saiu do programa de assistência, pelos vistos os ingleses, não estão a dormir. Por outro lado, está na agenda um novo «pacto germano-soviético» com a situação da Ucrânia em lume brando até ao fim dos Jogos Olímpicos de Sochi; a Grécia continua a balançar na lógica dos interesses turco-alemães; a Espanha foi, uma vez mais, salvaguardada, sem plano de assistência formal, mas com taxas de juro mais baixas.

Ora isto é recorrente, pelo menos, desde Fichte, o Sturm und Drang e a teoria dos espaços vitais de Razel, ao longo dos dois últimos séculos da história da Alemanha. Porém, a realidade é diversa, ainda não será desta ou jamais será. A própria proeminência da filosofia reformista alemã, cunhada pelo seu génio puritano, dualista e maniqueísta, está em causa precipitando a sua decadência: a queda do seu último bastião imperial.
A Europa se não agir depressa arrisca-se a um impasse de orfandade sem rumo.

Em contraposição com isso e erguendo os paradigmas da igualdade e da solidariedade, só vemos a Igreja católica a ser protagonista, com o papa Francisco: primeira instituição a ajustar-se à medida dos tempos, na salvaguarda dos valores do humanismo cristão.

 

  • Portugal e o Espaço Lusófono

 

Portugal navega à vista, sem rumo e sem estratégia. O ajustamento financeiro em curso, necessário, mas cujo desígnio não foi justificado, deixou o país exangue e descapitalizado. Era a peça que faltava para fecharmos a porta atlântica que os alemães historicamente sempre negligenciaram: daí «os submarinos» como arma tática.

Não podemos esquecer que encerrado o ciclo do império nos direcionamos, sem cuidar de salvaguardas, (parece que esquecemos as lições da história que nos custaram a independência), para opção europeia. O sistema político adotou sem reservas essa orientação; adesão à CEE, Maastricht e finalmente o Euro. A abertura escancarada de uma tão frágil economia conduziu à destruição de parte muito significativa do nosso aparelho produtivo; metalomecânica, agricultura e pescas, (coisa que a vizinha Espanha não fez). Depois foi o que se viu com a aplicação desenfreada e sem critério de recursos financeiros em investimentos de infraestruturas e bens não transacionáveis: lógica do betão.

Sem um modelo económico sustentável ficamos à mercê da voragem dos mercados financeiros; numa primeira fase foi a escalada consumista e as operações de corporate, com as PPP e depois os Swaps, comprometendo-se os recursos remanescentes dos fundos da segurança social, hoje sobre ataque desaforado.

Felizmente que não houve oportunidade para lançar o TGV, a nova travessia do Tejo e o novo aeroporto de Lisboa, em que o capital financeiro e as multinacionais alemãs tanto insistiram: valha-nos isso. Todavia, o resgate português custa em média a cada português 800 euros, quando o disfarçado resgate de Espanha, 180 euros per capita.
Está, por isso, mais uma vez em causa a independência de Portugal, quando a esquerda portuguesa, o PS, é cercado e se confronta, com a capitulação do Sr. Hollande e a Grande coligação alemã, (foi assim que começou o III Reich, com a subserviência do SPD).

A lógica que se impôs é a de que não há alternativa.

A estratégia, da normalidade normal, protagonizada em Portugal pela coligação PSD/CDS-PP visa fazer de Portugal um país de serviços de baixo valor acrescentado, sobremaneira o turismo e a bandeja, a «estratégia da bandeja» e a sua integração enquanto economia periférica, na região ibérica. Agora, sem nenhuma solução para sair do programa de assistência, a não ser a «falsa saída à irlandesa» que nos deixa entregues a nós próprios, com taxas de juro proibitivas, geradas no jogo de casino a que fomos submetidos, sem qualquer espécie de solidariedade dos países ricos do Norte da Europa, cujos bancos muito tem ganho à conta da especulação sobre a nossa dívida soberana, o governo português precisa do aval do PS.

Urge dizer não! Há alternativa!

Os Portugueses já deram provas da sua tenacidade ao longo da História. Defina-se uma missão e deem-lhes objetivos a cumprir. Não pertencemos de todo à cultura luterana e calvinista do Norte da Europa, imanentista, distante e exclusivista. Mesmo o nosso Espinosa não lhes deu margem, o seu raciocínio sistemático da Ética, despertou-o afinal para uma nova dimensão, a da emoção, cujo caminho está por fazer. Leia-se o Padre António Vieira e a visão globalizante do V Império, na sua História do Futuro ou no Sermão aos Peixes, colocando todas as raças em pé de igualdade: fermento do Brasil.

Do mesmo modo, Fernando Pessoa e a Mensagem, do que falta cumprir. Para não falar de Agostinho da Silva, José Craveirinha, Luandino Vieira, ou de Vinicius de Morais e a sublime proclamação de amor de Elis Regina, «…maior do que tudo quanto existe…!». Toda uma comunidade de afetos que culturalmente em nada se confunde com o Norte Europeu; constituindo, isso sim, uma importante corrente cultural, e porta aberta para outras dimensões a explorar em conjunto, no domínio, cultural, científico e económico.

Desde o século XV, pelo menos, que o nosso paradigma é o Mar.

Articulem-se os investimentos públicos, numa lógica estratégica nacional, que assegure a Portugal um posicionamento estratégico funcionando como plataforma logística para o espaço Lusófono: Porto de Sines, (com ligação ferroviária à Europa e apostando no aumento de trafego marítimo através do canal do Panamá), Aeroporto de Beja, como Hub de carga, articulando-se com a logística de Sines e, claro está o Alqueva, definindo-se uma nova centralidade geográfica no eixo Évora-Beja e posicione-se o Porto na perspetiva do eixo Porto-Vigo.

Para este projeto são ainda fundamentais, as competências e as capacidades tecnológicas desenvolvidas, no âmbito das comunicações e da energia, com acento nuclear no novo modelo energético em que se prefigura uma oportunidade para futuro na exploração da bacia do Atlântico.

Portugal, no entanto, tem de estar atento a manobras que tentem subordinar a quadros jurisdicionais atípicos as suas duzentas milhas marítimas e a ZEE. As ilhas, pouco europeias, sobremaneira os Açores, poderão ficar numa linha de fratura, onde não se pode deixar precipitar.

É fundamental, por isso, dar-se um novo impulso à CPLP, espaço vital da Língua Portuguesa, na lógica das parcerias económicas e monetárias, sem esquecer a vertente cultural e do pensamento estratégico de interesse comum para futuro: Têm de ser projetadas as nossas capacidades nos domínios da investigação e do conhecimento, que são vertentes estratégicas no quadro lusófono; o que implica que se pare a hemorragia da imigração qualificada, apostando-se no ensino e na investigação científica.

 

Cascais, 20 de Fevereiro de 2014                             

 

* Economista e Administrador de Empresas 


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1 Comentário

  1. Jorge Bravo says:

    Há muita coisa a fazer e muito por onde nos tornarmos relevantes!

    É necessário sair deste pântano “europeu” largar o euro se for necessário, e a fé messianica e salvifica na Europa, e voltar-nos para a nossa vocação de construtores de pontes, aí pelos 5 Oceanos ligando gentes e continentes!

    O que seria necessário era então um Plano Geoestratégico Nosso, que dê base de sustentação a um Plano Geopolítico Nosso, realmente pensado por Nós para Nós, e para nos defender da Geopolítica dos outros, e projectar o nosso desenvolvimento sustentado futuro.
    Ambos os Planos de geometria variável e altamente adaptáveis, tal como o foram assim, no tempos de D. João I a D. João II, por forma a nos lançar em uma senda de desenvolvimento sustentado, com base nas nossas características como pessoas, a partir dos nossos recursos, e assentes numa matriz de Saber e Conhecimento e Inovação, e executados com gestão prudencial dos meios e recursos.
    Lançados com a Diplomacia e a Pedagogia necessárias para serem mobilizadores das vontades dos cidadãos, e do bem comum, mas de forma apaixonada e activa, para acordem em Nós o espírito do Engenho e da Arte de Bem-fazer, e da Vontade de Superação, tão Nossa, tão Portuguesa!
    Ao contrário dos que nos tem impingido é falso que não tenhamos recursos próprios! Temos recursos, nossos e suficientes!

    Demonstra-se assim até à saciedade, como o que falta é um plano minimamente pensado e detalhado, O Que é necessário para focar o País em objectivos reais!

    “Os Portugueses já deram provas da sua tenacidade ao longo da História. Defina-se uma missão e deem-lhes objetivos a cumprir!”

    O TEMPO URGE!

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