Notas sobre o funcionamento do site

Voltar à disposição inicial da página.

Restaurar

barra login

CEO Lusófono: Portugal, a Europa e a Lusofonia (2)



abl
Segunda parte do texto de Amadeu Basto de Lima sobre “Portugal, a Europa e a Lusofonia“.

 

  1. Artiggo Gratis CEO LusofonoQual é a nossa Alternativa

As dúvidas dissipam-se quando se olha para a História de Portugal que nos ajuda a refletir e a perceber os desafios que temos pela frente. Com efeito, fomos os protagonistas da primeira globalização, encetada pela tomada de Ceuta em 1415: Portugal vai «situar-se» no encontro entre o Ocidente e o Oriente, nos planos; religioso, cultural, científico e económico, tendo início os Descobrimentos Portugueses. Consideramos, aliás, do ponto de vista histórico que, depois da democracia ateniense, depois do nascimento do cristianismo, os Descobrimentos Portugueses, constituem o mais importante acontecimento cultural e científico da civilização Ocidental até aos tempos modernos e o movimento das luzes.

De facto, os Descobrimentos Portugueses obedeceram a uma estratégia sistémica e tiveram um caráter claramente científico, (cartografia, cosmografia, construção naval e armaria, logística, registo metodológico de todos os eventos etc.) independentemente da expansão do cristianismo e do comércio das especiarias que dominamos cerca de 100 anos. Para esse acontecimento se realizar estiveram em confronto duas opções estratégicas: uma que tinha um caráter feudal, sendo a posição dominante na fidalguia portuguesa, de atacar Granada; a outra, a Tomada de Ceuta conferindo a Portugal uma posição chave no controlo da porta do mediterrâneo e do tráfego marítimo que circulava até o norte da Europa. Segundo Azurara, David Lopes e Vitorino Magalhães Godinho foi o partido de João Afonso de Azambuja que prevaleceu na decisão do rei D. João I fazendo vencimento sobre a opção feudal. Aquela opção mobilizou por isso a burguesia mercantil de Lisboa e do Porto que financiou o projeto, fazendo de Portugal, na opinião de C. Boxer, o primeiro Estado moderno da Europa.

É Camões quem magistralmente o canta nos Lusíadas, obra magna da Pátria portuguesa, onde, a par da epopeia, vemos sacrifícios inomináveis; a morte, a doença e a saudade, em nome de um desígnio maior, sendo os antigos heróis individuais substituídos – no que é novo – pela vontade coletiva de um povo; transformando-se assim, ele próprio no único herói.

No Canto III, ao referir-se à Europa, à Espanha e a Portugal, Camões faz sobressair a nossa identidade distinta daquelas. Portugal é a Porta do Mar, fator geográfico determinante. A sua rede hidrográfica, a morfologia do solo voltada para o mar, bem como, os fatores culturais enraizados na cultura católica favoreceram o seu modo de vida, o que lhe permitiu a independência e a sua construção como nação, conferindo-lhe cada vez mais soberania e autoridade à escala planetária. Pessoa na Mensagem faz essa mesma exortação, marcando a Hora!

Camões no Canto I

X, no episódio da Ilha dos Amores, onde Vénus prepara o merecido repouso dos guerreiros Portugueses, numa visão sincrética entre o helenismo e o cristianismo, revela a experiência própria de um homem do novo mundo nascente em que a pedra de toque é o humanismo.

Como já caraterizamos anteriormente, a Europa está num impasse porque foi submetida à lógica dos interesses estratégicos da Alemanha e dos países do norte num desenfreado ataque do liberalismo económico que conflitua com os países do sul e, claramente, com os de Portugal. A Europa, já não é um espaço de pluralidade, de solidariedade e de igualdade, prevalecendo os interesses daqueles; alargou-se para leste em vez de se aprofundar institucionalmente.

A moeda única, passados alguns benefícios iniciais, expôs, assim, as fragilidades estruturais dos países do sul, favorecendo um modelo de acumulação de capital em favor dos interesses dos países do norte, o que contribuiu fortemente para acentuar as diferenças com a divergência entre eles; diminuindo a competitividade (custos de contexto, energia mais cara, taxas de juro mais elevadas, falta de investimento nas tecnologias de produção) daqueles e aumentando a dependência do centro de decisão. Não é por isso de estranhar que rapidamente se passasse da fase do diretório para a hegemonia de Berlim.

Adensam-se, entretanto, nuvens no cenário geopolítico internacional.

O Ocidente, EUA e a UE, numa lógica pangermanista e puritana, ao reconhecerem o novo governo interino da Ucrânia, que não passou pelos votos, dão a Putin legitimidade para defender os interesses da população pró-russa na Ucrânia, depois do episódio da Crimeia. A ocupação militar que Moscovo estará a conduzir é essencial para o eixo asiático, embora, na forma, seja incómoda, porque, a divisão da Ucrânia poderá abrir mais um precedente separatista que Moscovo tem de evitar. Na verdade, a questão do Kosovo ainda está por resolver e, «internamente» existem vários problemas étnicos e religiosos que Moscovo terá de acalmar; a que irá acrescentar-se, proximamente, a questão afegã, com a saída das tropas americanas.

O processo ucraniano se for no sentido de enfraquecer a Rússia e isolá-la da Europa e do Ocidente, ainda ao sabor da estratégia maniqueísta de Bush, de criar o caos na impossibilidade de controlar um regime que lhe seja desfavorável, pode ser muito perigosa. Trata-se de persistir num erro que como vimos teve consequências desastrosas no Iraque, na Síria e no Afeganistão. A Rússia, percebendo isso, não pode ficar isolada nem abdicar da sua posição, a fim de assegurar o equilíbrio geopolítico.

Assim, na Europa, é chegado o momento, com as eleições de Maio, para refletir sobre o seu futuro e, verificar se há condições para dar um novo impulso ao projeto dos pais fundadores saídos da Democracia Cristã e da Social-Democracia. O «pensamento único» vigente, que não deixa qualquer alternativa, impondo fórmulas de ação política no discurso Europeu, põe em causa os pilares do projeto Europeu, a saber: a democracia, a alternância política, a solidariedade, a pluralidade e a igualdade entre os povos europeus.

A democracia vive do debate plural de ideias e da capacidade de acrescentar voz à cidadania e à sua livre escolha hoje posta em causa quando se pretende condicionar essas mesmas escolhas, fazendo dos partidos políticos – vetores fundamentais na construção da sociedade democrática Europeia, como o foram os partidos democratas-cristãos e sociais-democratas –, meros instrumentos do discurso oficial, numa lógica aparelhística que se limita a alimentar as clientelas de funcionários que lhe assegurem a mantença. O discurso do «pensamento único» tem corroído os valores da liberdade, da igualdade, da dignidade humana e da justiça social, o que inexoravelmente conduzirá à ditadura e ao messianismo, senão for travado e contestado.

O sinal mais evidente, desse plano, tem sido a chamada «ditadura dos mercados» conduzidos por forças invisíveis que não são sujeitas a qualquer escrutínio de legitimidade e que aumentam de forma galopante o lucro de alguns em prejuízo da maioria, numa corrida desenfreada que só tem cavado as desigualdades entre os povos e as nações europeias. Que diriam hoje, desta Europa, os seus pais fundadores, como Jean Monet ou Robert Schumann. Esta Europa que nos foi colocando cada vez mais numa posição periférica e nessa sequência numa menor escala. Esta Europa do norte que tem permitido a especulação sobre as dívidas soberanas dos países do sul sem qualquer proteção do BCE, situação que conduziu ao empobrecimento e à dependência daqueles, que beneficiam escandalosamente, quais agiotas, das taxas de juro obtidas nos ditos «mercados financeiros» que controlam.

Não nos podemos permitir ser levados para o gheto do protectorado

Os países do sul não podem permitir ser levados para o ghetto do protetorado, onde seremos «comidos vivos» como diz Marine Le Pen, que vai levantando as bandeiras da extrema-direita, com algum sucesso. Mas, na verdade, no atual cenário europeu, só temos a perder perante forças impiedosas, que nos controlam e impedem o crescimento económico, só permitindo um modelo único de acordo com os seus interesses.

Importa agir depressa, questionando inclusivamente o novo QREN, utilizando-o como arremesso negocial e, trocando-o, parcial ou totalmente, pela redução da dívida, em vez de incorrermos nos «vícios do costume» que, em benefício de uns poucos, agrave ainda mais o nosso endividamento com as «engenhosas PPP’s».

Senão vejamos:

Os 21 mil milhões de euros previstos no próximo QREN inserem-se num processo em que vamos ter muito mais condicionalidades do que no anterior, quer na tipologia dos conteúdos e dos apoios financeiros, quer sobremaneira, por via do Tratado Orçamental através da imposição dos rácios de 3 por cento para o deficit e 60 por cento para a dívida pública, relativamente ao PIB, entre outras regras contidas no «six-pack» e o «two-pack», (deficit estrutural sujeito a um limite de 0,5 do PIB). O Orçamento português, passará assim, pese embora todo o exercício da retórica parlamentar, a ser submetido ao «visto prévio» da Comissão Europeia e do Eurogrupo.

Por outro lado, no que se refere ao excesso de dívida pública, em relação ao valor de referência de 60 do PIB, Portugal deverá reduzi-la, na parte que excede aquela percentagem, ao ritmo médio de um vigésimo por ano, o que implica um crescimento anual do produto nominal de 4 por cento e uma taxa de juro implícita da dívida de 4 por cento, para atingir em 2035, o valor de referência de 60 por cento para o rácio da dívida. No entanto, para que isso acontecesse seria necessário que o Orçamento registasse, em média, um excedente primário anual de cerca de 3 por cento do PIB.

Seriam necessários vinte anos de continuada austeridade!

Sob que desígnio se pode justificar tal imposição aos portugueses. Pasme-se, ainda, como se a volatilidade dos acontecimentos num ambiente de globalização e de grande incerteza, possa permitir com alguma margem de segurança justificar tal desaforo.

Mas há mais, no novo QREN, seguindo a mesma lógica neoliberal, ainda se preveem medidas como, o estabelecimento de formatos que facilitem as privatizações, as parcerias público/privadas e, finalmente, a flexibilização laboral.

Por sua vez, o quadro estratégico assenta em objetivos que endereçam para o acelerar da dinâmica das privatizações em setores como os transportes, águas e saneamento, bem como outros serviços essenciais, facilitando a desregulamentação e a transferência de rendimentos do trabalho para o capital. Grande parte do financiamento será canalizado através de empréstimos, de bonificações e de, «instrumentos de engenharia financeira», as malfadadas PPP’s, que se caraterizam pela socialização dos encargos e privatização dos lucros, i.e., pela transferência do risco do concessionário para o Estado, para o contribuinte melhor dizendo, tendo como resultado o aumento da dívida pública.

Para isso servirá, também, o chamado «Banco de Fomento», que fará a gestão dos fluxos, sendo o retalho assegurado pela banca privada, onde se acumulará o benefício desta monstruosa cabala.

Seguindo este modelo o Estado teria de canalizar como cofinanciamento, cerca de 180 milhões de Euros por ano, durante oito anos, para os grandes projetos, montante de que não dispõe, dado que não tem saldo orçamental primário e já se foram os anéis para o pagamento do serviço da dívida: só faltam os dedos.

Todas estas condicionalidades, importa afirmá-lo com clareza, hipotecam ainda mais a nossa já limitada soberania e são dificilmente praticáveis num quadro democrático pondo em causa a coesão social e política.

Importa por isso sermos realistas e não embarcarmos num processo sem retorno, o do chamado «período pós-troika» que está a ser cozinhado e que tem sido escamoteado por toda a gente menos pelo Presidente da República.

Será que o país está suficientemente informado sobre a enorme perda de soberania e empobrecimento que aí vem a pretexto da estabilidade do Euro, sendo que foi justamente desde que entramos na moeda única que aumentou a nossa divergência em relação à média europeia e sobremaneira em relação aos países do norte e da própria Espanha. Segundo dados de 2011, das cinco regiões mais ricas da EU, três são alemãs e duas francesas, a mais rica Wolfsburg com um PIB per capita de 108,9 milhares de Euros; do lado das cinco mais pobres três são portuguesas e duas gregas, sendo a Serra da Estrela a mais pobre com um PIB per capita de 8,3 milhares de Euros.

Será o país viável prosseguindo este caminho?

O debate tem de ser aberto às alternativas que se colocam e é justamente este o momento, o das eleições europeias.

Defendo, por isso, que nos voltemos de novo para o mar que é a marca da nossa singularidade, constituindo o fundamento da melhor alternativa que temos pela frente, embora sem sair da EU, mas questionando o Euro. Fomos singulares, sobremaneira pela miscenização social e cultural que realizamos na 1ª globalização.

A nossa cultura integrou esse conhecimento.

Que força isso traduz?

Temos capacidade e condições para recolher o fruto do que semeamos. Trata-se do reencontro com a «Grande Família da Língua Portuguesa» para realizarmos em conjunto investimentos de interesse comum. Olhemos, pois, para a diáspora, a «nação peregrina», como muito bem diz o Prof. Adriano Moreira e para o Mundo da Lusofonia, unido pela estrada que melhor conhecemos o Mar. Os países da Lusofonia são todos marítimos e, alguns deles, como o Brasil, Angola, Timor e, também, Moçambique importantes players na atividade económica centrada no mar, sobremaneira no domínio da energia, de que a Europa carece, mas para a qual não possui uma «estratégia energética comum», como se está a verificar no conflito com o leste, Ucrânia versus Rússia versus Alemanha.

A bacia do Atlântico vai ser muito relevante no domínio energético e Portugal tem ao seu dispor, além da sua ZEE em via de ser alargada para as 350 milhas o que para nós é estratégico e inalienável, também a capacidade logística que os seus portos de mar, nomeadamente Sines nesse contexto.

Importa compreender e integrar no discurso político que uma parte considerável da nossa força está na diáspora e na capacidade de se conseguir que os países da Lusofonia se unam connosco num projeto comum que a todos galvanize e interesse, sobremaneira os que têm uma posição estratégica no Atlântico Sul.

Quando nos unimos por uma causa comum vencemos, sendo que fatores externos adversos mal interpretados historicamente sempre nos conduziram ao desespero e à ruína. O problema está assim, claramente identificado e situado. É de natureza política e de insuficiente perceção dos fenómenos de conjuntura, dado que, na longa duração o conceito estratégico de «Potência Atlântica» sempre revelou uma grande constância.

Estar no Mar, coexistir na Península alcançando a Europa.

É este o novo paradigma. Fazer de Portugal uma grande plataforma entre o Mar e a Europa. Que fique assim claro que não defendemos a saída de Portugal da UE, mas a afirmação das nossas singulares condições geográficas e consequentes potencialidades económicas, culturais e políticas.

  1. Perspetiva económica na globalização em curso

Os dados de conjuntura de Portugal são conhecidos e muito pouco auspiciosos, com alguns sinais ténues de crescimento da economia, realizada pelos privados, sobretudo as exportações, embora já nos limites da capacidade instalada e com significativo peso da produção da refinaria de Sines, revelam-se inconsistentes quanto à sua evolução, uma vez que ainda estão muito distantes dos indicadores de partida, relativos a 2010.

O enquadramento económico

Pode-se afirmar, assim, que passados estes quase três anos, se verifica que o programa de assistência e o processo de ajustamento dele decorrente foi mal sucedido.

Com efeito, a política de austeridade foi excessiva, a dívida pública e privada têm aumentado de forma não sustentável a prazo, o desemprego é muito elevado, o sistema financeiro continua depauperado e o modelo social, (educação, saúde e segurança social) tem maiores constrangimentos, tudo em conjunto criando uma forte pressão sobre a procura interna e a poupança, além de que os problemas estruturais permanecem e nem sequer a reforma do Estado foi delineada. Isto é, resolveu-se o problema de liquidez imediata do Estado, mas a margem de manobra ficou perigosamente condicionada pelos ditames da Europa do norte, pior ainda quando se fala em mais medidas de austeridade para depois das eleições europeias, sendo que Portugal desceu mais um degrau, passando a ser o nono país mais pobre da UE, num conjunto de países de adesão recente. Ora, importa dizer que a estratégia de empobrecimento em curso não é exequível, nem social nem politicamente.

O país está exaurido, tendo perdido alavancas de comando em áreas estratégicas, como a energia que, caso nunca visto, vendeu a um país estrangeiro, sendo que, por outro lado, deixou intocáveis, as chamadas «gorduras do Estado» e os «interesses instalados», o que criou uma forte pressão sobre a procura interna, no imediato, comprometendo a prazo a capacidade de investimento. Isto tem-se vindo a refletir, quer na renovação da capacidade instalada, quer no direcionamento para novas áreas de negócios, cada vez mais dependentes do recurso a capitais externos.

Finalmente, as gerações mais recentes, em que se investiu fortemente em formação nos últimos dez anos, fundamentais no novo ciclo económico, estão a emigrar, o mesmo se verificando quanto à taxa de natalidade, a atingir níveis que comprometem o processo natural de renovação geracional. Todo este quadro em processo tem de ser tolhido rapidamente antes que se atinja um ponto de não retorno.

Matérias de Governo

No processo de globalização em curso, seguindo a teoria dos «grandes espaços», estamos na fase de estabelecimento ou de reorganização dos grandes espaços económicos, o que ainda vai demorar, pelo que o traço dominante vai ser o da incerteza.

A oportunidade de coligações e ou acordos bilaterais entre os atores principais de uns com as periferias de outros vão ocorrer de forma dificilmente controlável antes da fase de consolidação. Daí que, no caso em que existam fortes motivações culturais e o fator comunicação seja acessível e permanente, surgirão oportunidades a não desperdiçar e que poderão perdurar.

É justamente o caso paradigmático dos países que integram a CPLP, que estão desde logo todos ligados pelo mar e por um língua comum, o português.

Portugal continental, as suas ilhas atlânticas e a sua ZEE serão fundamentais para a realização do projeto, mas não só, também a nossa diáspora, do mesmo modo que todos os países lusófonos e as suas diásporas.

A geometria será, no entanto, variável sem o predomínio de qualquer um deles, mas em que as vantagens competitivas serão determinantes para o interesse comum, em função de projetos concretos.

Seria, então, de se promover a criação de um espaço comum de livre comércio, no quadro da CPLP, com uma implementação faseada, com acordos multilaterais; que poderiam, desde já, começar pela energia, colocando a par o ensino e a cultura, onde existem fortes competências e qualificações. Estes dois vetores em movimento poderão potenciar os domínios da logística, onde já existe capacidade instalada, bem como, a investigação científica, numa simbiose que a cultura realimentará, reforçando os laços de identidade.

Que se identifiquem os investimentos a realizar e a sua respetiva localização, bem como os recursos financeiros a afetar, nos domínios da exploração de novas forma de energia, bem como da logística; portos e sistemas de comunicação e segurança.

Que se organizem e desenvolvam áreas de ensino e investigação científica que financiem projetos comuns, pondo em contato, as academias universitárias dos países interessados, com a atribuição de bolsas e prémios aos que mais se distingam.

Que se programem ações nos diversos domínios da atividade cultural, que promovam o aprofundamento dos laços culturais entre os países membros, em torno de programas anuais, com a atribuição de bolsas e prémios aos que mais se distingam.

Finalmente, que se definam programas de financiamento de construção e desenvolvimento de hardware e software de segurança, bem como a formação dos seus utilizadores e agentes, trocando-se experiências e conhecimento que a língua e culturas comuns facilitam.

Projeto de Sines

Um projeto que poderia desde já avançar é o da plataforma logística de Sines, qualificando-se este espaço em vista dos seus recursos endógenos; o mar e o porto, a água e a capacidade agrícola e turística de Alqueva e o vetor aeroportuário que os complementa em Beja, tudo isto numa perspetiva de grande capacidade logística em que grandes investimentos públicos foram oportunamente realizados faltando somente a modalidade ferroviária, que acrescentará um valor significativo ao ligar-se Sines ao interland europeu, bem como a consequente dinamização de uma nova centralidade a Sul de Portugal, que será extremamente importante em termos de ordenamento e coesão do território. Além disso, este projeto inserido numa visão estratégica, poderá conferir a Portugal, um papel muito importante de charneira entre a UE e o Atlântico Norte e Sul.

Do ponto de vista económico, o espaço da Lusofonia, em África, nas Américas e no Oriente, reúne atributos de grande importância estratégica para o futuro. É nessa perspetiva, que devem ser equacionados: a ZAL do porto de Sines (Zona de Atividade Logística com ligações multimodais triangulares entre os modos marítimo, rodoviário e ferroviário), ainda com deficit na componente ferro-marítima, um HUB no aeroporto de Beja (plataforma logística para concentração de carga) e o projeto do Alqueva.

Estudámos, há alguns anos, a decisão irlandesa de construir um aeroporto em Shannon, antiga base militar da 2ª guerra mundial. Recordo que, em simultâneo, foi construído, um porto de grandes dimensões, em Bantry-Bay.

Galway, a cidade mais próxima, teve um desenvolvimento impressionante e é hoje um autêntico Silicon Valley europeu. Com esse objetivo, o Governo irlandês concedeu incentivos fiscais e financeiros e criou uma zona franca, atraindo assim fortes investimentos externos. O Oeste da Irlanda, de região rural e periférica passou a ser uma enorme porta aberta para o Atlântico.

Havendo um ponto em que existe acordo, que é a importância do porto de Sines, comecemos por ele. Na verdade, o porto de Sines, pela sua envergadura, maior porto de águas profundas da fachada atlântica e que não receia a concorrência de outros, tem de ser elemento pivô de qualquer opção estratégica.

As infraestruturas de que dispõe: terminal de granéis líquidos, terminal de granéis sólidos, terminal petroquímico, terminal de gás natural liquefeito e terminal de contentores, a par da nova refinaria da GALP virão reforçar o seu papel no quadro Atlântico e da Segurança Europeia. Veja-se a tensão que se assiste na fronteira leste da Europa, na Ucrânia a que não é alheia a questão energética, nomeadamente, o gasoduto russo/ucraniano que coloca a Europa do norte dependente da Rússia. Sines terá vantagens em posicionar-se como uma das principais entradas ibéricas de gás natural e em conjunto com a Espanha suscitar à UE um programa de diversificação do seu abastecimento. Neste quadro, o túnel dos Pirenéus pode constituir uma oportunidade para vencer algumas barreiras, também no âmbito da eletricidade, puxando a França para a viabilização do projeto.

Também é necessário consolidar a parceria em devido tempo estabelecida com a PSA e porventura alargá-la a outros parceiros para que tenha maior impacto quer na Andaluzia quer na Extremadura e explorar-se complementaridade ligando-o por via-férrea àquelas regiões e ao HUB, para o qual se aponta a solução de Beja. Este aeroporto tem uma localização privilegiada, com disponibilidade de espaço aéreo, condições meteorológicas únicas e pistas onde pode aterrar qualquer tipo de aeronave.

Importa salientar que no paralelo Sines / Beja se localizam fortes investimentos públicos: o porto de Sines, a barragem do Alqueva e o aeroporto de Beja, que deveriam ser articulados aproveitando-se todas as economias de escala daí resultantes.

O projeto do Alqueva, aliás, só terá sustentabilidade se for centrado nos seus objetivos iniciais (pena é que se tenha alienado a componente da energia à EDP, quando se evitou logo no início do projeto uma PPP com aquela) e enquadrado num cenário estratégico em que seja desenvolvida a sua atratividade em relação à Andaluzia e a Extremadura. Deverão ainda ser exploradas de forma estruturada as suas potencialidades no quadro das energias alternativas, que poderão desencadear de novas competências no domínio agrícola, mas, sobretudo considerar as culturas do regadio, para o que não é despicienda a experiência bem-sucedida do Oeste português que opera nos grandes mercados europeus.

Ligação Sines/Algeciras

No mesmo sentido ganha ainda interesse, considerar, no âmbito das ligações ferroviárias de Sines, a hipótese aventada numa das anteriores cimeiras ibéricas de se promover a ligação ferroviária entre Sines e Algeciras, que passando por Beja contribuiria também para intensificar as nossas relações económicas com a Andaluzia, abrindo-se uma nova porta para o Mediterrâneo. Com efeito, a ligação ferroviária entre Sines e Algeciras abrirá uma nova via estratégica, alternativa à passagem do estreito de Gibraltar, o que garantirá, em qualquer circunstância, nomeadamente em matéria de segurança, uma acessibilidade alternativa entre a porta atlântica e a entrada do mediterrâneo, reforçando-se, assim, o acesso ao Mediterrâneo.

Com este projeto, identificamos finalmente três objetivos que reforçam a nossa capacidade de enfrentar a crise e salvaguardar a soberania nacional:

  1. A afirmação de Portugal e da CPLP, como fatores de estabilidade na cena política internacional.

  1. A ocupação territorial do Alentejo, combatendo-se a desertificação do interior (1/3 do território com 5% da população do continente), exponenciando as infraestruturas já construídas no Alentejo e, conjugando as vertentes, económica, logística, energética e de segurança.

  1. Um novo modelo de desenvolvimento sustentável, de elevada componente tecnológica que aproveite melhor as nossas qualificações nos diversos domínios da investigação científica e tecnológica em que se investiram elevados recursos na formação das novas gerações, procurando parcerias e investidores de forma a evitar a dramática sangria com a emigração dos jovens e a redução da natalidade, com graves consequências para o futuro.

Cascais, 17 de Abril de 2014

* Amadeu Basto de Lima é economista e administrador de empresas


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Posts relacionados:

Deixe um Comentário

 


Compression Plugin made by Web Hosting