Notas sobre o funcionamento do site

Voltar à disposição inicial da página.

Restaurar

barra login

EPITÁFIO: ELOGIO FÚNEBRE DA EMPORDEF



 
 
 
Sérgio Parreira de Campos, ex-CEO da Empordef:

Há mortes e mortes. Há mortes que são uma bênção. Mas há também aquelas mortes que amputam um pouco da nossa vida. Essas, deixam marcas.

Vem isto a propósito da morte inesperada de uma companheira nossa. Não, não é apenas morte física. É sobretudo de espírito.

A sua vida não foi levada até ao limite do possível, nem do desejável. Mas, enquanto viveu, proporcionou valor acrescentado ao país, elevado nível de exportação e manteve e criou muitos postos de trabalho.

O certo é que morreu. Foi desta para melhor. Eram, mais coisa, menos coisa, onze e quarenta e cinco da manhã, do dia vinte e seis de Junho do Ano da Graça de dois mil e catorze.
Foi daquelas mortes que me chocou. Chocou-me porque não se tratou de morte natural, mas de assassínio.

O ministro Aguiar-Branco anunciou que vai encerrar a Empresa Portuguesa de Defesa (Empordef) e que as sociedades que a integram passam a ser geridas pelas tutelas setoriais da Defesa e das Finanças.

No tom laudatório que é da praxe nos elogios fúnebres, o ideólogo de serviço do governo e do seu primeiro, veio à praça pública defender os méritos daquela decisão.

José Pedro Aguiar-Branco disse que irá propor que a atual administração da Empordef, “holding” estatal que agrega as indústrias portuguesas de Defesa, apresente «em 90 dias» um « plano de dissolução», por entender que «não faz sentido» continuar a existir uma sociedade gestora de participações sociais do universo das empresas de Defesa.

O facto de a empresa pública Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) ter sido extinta (e os terrenos e infraestruturas subconcessionados) também contribuiu para a decisão de liquidar a Empordef, disse Aguiar-Branco. Também ?

Aguiar-Branco disse que o objetivo do ministério é apostar na «diplomacia económica na área da Defesa de forma mais forte e concertada» e que, nesse sentido, será alterado o objeto social de uma das empresas do universo Empordef, a IDD, Indústria de Desmilitarização e Defesa, para que esta entidade passe a assegurar a promoção das empresas portuguesas do setor.

A promoção das empresas do setor ? De quais empresas ? O que é que resta da sanha destruidora deste governo, que valha a pena promover ? Absolutamente nada.

Para mais, a secretária de Estado Adjunta e da Defesa Nacional lembrou também que algumas das empresas (das que ainda restam) estão em processo de privatização, seguindo “a linha definida pelo Governo”.

Bom, mas está feito. Resta prestar o elogio fúnebre da falecida.

Finou-se com apenas dezoito anos. Era uma jovem, quase sempre trabalhadora incansável, guerreira. educou para o bem todos os seus filhos, jamais se descuidando do seu bem estar, mesmo diante de todas as agruras que passou.

Cumpriu a sua missão com valor, com muito trabalho, e com resultados. Mostrou-se a nível nacional e internacional, fez-se respeitar pela sabedoria, pela qualidade do seu trabalho, pelos resultados que conseguiu.

Conseguiu ter as suas “filhas” a apresentarem resultados operacionais positivos, mesmo aquela muita falada que vivia em Viana do Castelo. E, não fora a prática continuada de sucessivos governos “varrerem o lixo para debaixo do tapete” muito mais poderia ter feito.

Aguentou os desvarios de quem dela devia cuidar. Lembram-se certamente de o governo ter criado um grande programa de construção de navios militares para o qual as empresas se prepararam, ganhando conhecimento, e investindo fortemente, investimentos a recuperar em todas as construções programadas. O governo fez cessar o programa após a construção de apenas dois navios, ficando a maioria do investimento por recuperar. Imagine3m os prejuízos que o governo lhe fez sofrer.

Não se lembrarão, porque não sabem, mas vão saber que um primeiro ministro quis, à revelia das leis do país, vender três das empresas tecnológicas do grupo, a um empresário que por acaso era seu amigo de infância. Felizmente, a agora finada conseguiu impedi-lo. Claro que com consequências.

Mas lembram-se com certeza das trapalhadas em volta do navio Atlântida, rejeitado pelo governo dos Açores por apresentar menos um nó de velocidade que o pretendido. Recordem-se que o navio foi construído segundo projeto do cliente.

Deu muitas demonstrações de amor ao próximo, alimentando vizinhos pequenos, alguns mesmo miseráveis, acolhendo sob a sua influência muitas personagens carentes da sua ajuda. Entendia isso como uma missão, para o bem do país.

Foi leal, mas nem sempre alvo de lealdade. Aturou visões miserabilistas, tentando sempre explicar o outro lado da questão, e as virtudes desse lado. Foi incómoda, não pactuou com a corrupção.

Foi rebelde, frequentemente inadaptada aos desvarios políticos que a incomodavam. Por vezes não se encaixava no status, via as coisas de forma diferente, não gostava das regras que lhe queriam impor, mas das suas próprias.

Muitas vezes foi ignorada, provavelmente pela ignorância de quem não a poderia ter, precisamente por não entenderem que são os inadaptados, os que “não encaixam”, os que veem as coisas de forma diferente, são estes que provocam os avanços. Provavelmente entendiam-na como louca, sem perceberem que só os suficientemente loucos para pensarem que podem mudar o status, são os únicos capazes de o fazer.

Depois, depois, as coisas mudaram, para pior evidentemente !

Começaram as vendas e as concessões. Não entendeu o governo (não ?) que em alguns casos não estava apenas a vender empresas, mas sim soberania. De facto, não espanta.

Nos últimos tempos, a finada aparecia esguia, silenciosa como se já não existisse, talvez do ambiente tumultuoso e impiedoso que a cercava, e de ter à sua frente quem dá à sola por ver as coisas mal paradas, ou quem apenas se preocupou em “representar uma atitude social conveniente”, daquelas que não incomodam, mas que também não conseguem mudar seja o que for, a não ser para pior.

Pois é, quando se convida certa gente para uma festa, “ou se contratam seguranças, ou arriscamo-nos a que, no fim da festa, as pratas ganhem asas”.

Paz à sua alma !

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Posts relacionados:

Deixe um Comentário

 


Compression Plugin made by Web Hosting