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REDESCOBRIR ALEXANDRE HERCULANO



e sua mui detalhada crónica da criação 

dos modernos serviços de inteligência

 

Há anos que não punha os olhos na prosa do Alexandra Herculano. Nem na ficção, nem nos trabalhos do historiador. Um destes dias parei numa ‘estação de serviço’ para meter gasolina, fui beber um café e comprar jornais e dei de caras com uma edição em tomo único dos dois livros das “Lendas e Narrativas”, a um preço irresistível. Comprei e, nessa noite, fiquei a reler, a redescobrir estes contos históricos de um dos mais importantes intelectuais do séc. XIX português. E redescubro, então, uma “crónica” cujo sentido e conteúdo me tinham passado totalmente ao lado quando a li (um pouco por gosto e o resto por obrigação), na minha adolescência. É a crónica chamada “Mestre Gil” que Herculano assinala como “Século XV”. E, tanto quanto me lembro, Herculano deve ter sido o primeiro autor português a dedicar todo um trabalho de ficção a tão delicado e interessante assunto.

 

“Mestre Gil” é, de facto, uma “crónica” sobre a mestria dos serviços de inteligência e segurança, montados e dirigidos por Antão de Faria, “camareiro d’el Rei”, grande precursor e genial pioneiro na invenção dos modernos serviços secretos. Décadas mais tarde, Sir Francis Walsingham recuperará parte do saber de Antão de Faria e ao serviço de Elisabeth I criará o mais tarde chamado MI5, cuja existência só foi oficialmente reconhecida na segunda metade do século… XX

 

“Mestre Gil” descreve, com a segurança e o rigor de Herculano, operações pontuais, no âmbito de grande operação lançada pelo rei e seus colaboradores mais chegados. Herculano mostra como Antão de Faria cria um “agente de influência” para ganhar a opinião pública para o seu lado e isolar os “inimigos” a abater e como este nosso “grão-mestre da inteligência” já sabia criar e usar “buzz”… Páginas mais à frente, Herculano  descreve uma operação fatal, ao modo da absoluta discrição de Antão de Faria. Tão discreta é a operação que, passando-se debaixo do nariz de Mestre Gil, este nem sequer a vê.

 

Lamentavelmente, talvez nenhum dos nossos recentes Presidentes, Primeiros-Ministros, ministros da Administração Interna, da Defesa ou dos “Estrangeiros” (abro uma excepção para Luís Amado) e dirigentes de “serviços” conheça sequer o nome de Antão de Faria (quanto mais o seu saber e artes…).

 

É, porém, de absoluta justiça ressalvar aqui os nomes do senhor general Pedro Cardoso (que o estudou, procurou ensinar e escreveu sobre a matéria) e do senhor comandante Virgílio de Carvalho, grande cultor das artes de inteligência. Foram eles os dois grandes admiradores e estudiosos, neste nosso tempo, das artes deste grande precursor.

Fernando Campos retrata, em “A Esmeralda Partida”, um Antão de Faria em modo angustiado, após a morte do seu “Príncipe Perfeito”, e só amparado pelo “moço de câmara d’el Rei”, o “mui sincero e imparcial historiador” Garcia de Resende. E que razões várias ele tinha para a sua angústia… Sir Francis Walsingham terá tido outras mas não teve nenhuma das mortíferas razões que angustiaram Antão de Faria (e Garcia de Resende e outros, como Albuquerque) após a morte de D. João II.

Esta “Esmeralda” de Fernando Campos é uma viagem alucinante ao íntimo de Portugal. Com a descoberta do melhor e do mais belo mas também do mais nauseabundo. Uma viagem, bem fundo, ao centro do problema português. Com encontros com gente como Antão de Faria e Garcia de Resende, do círculo íntimo de D. João II, mas também com a pior gentalha. Ah, e com aquela velha e boa bruxa (criação do genial Antão de Faria, para dizer o que ele não podia sequer aflorar…) do “Cuida-te, Rei, que te querem matar…”. É desnecessário dizê-lo, mas aqui fica: é da melhor ficção portuguesa e do que mais prazer e conhecimento me deu ao ler. Um dos poucos romances portugueses que não me canso de ler e reler.

Nesta “Esmeralda” até a capa é fabulosa! Não conheço o seu autor mas fez um belo trabalho e soube meter lá tudo o que havia para meter, toda a história. A velha ‘bruxa’ que fia avisos ao rei, a taça por onde chegou na água o veneno e os planos inacabados, do Princípe Perfeito, no papel dobrado bem guardados. De Fernando Campos, um romance histórico, de muito boa escrita, que resolve resolve muitos dos mistérios da genialidade e do fracasso de Portugal.

 

 

Alexandre Herculano – Lendas e Narrativas, volumes I e II, ed. Leya

 

Fernando Campos – A Esmeralda Partida,  Col. Literatura Portuguesa, ed. Difel 


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