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A situação dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo

Em 2004, o Governo da coligação PSD,CDS/PP, tomou a decisão de enquadrar os Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) na dependência da holding estatal das indústrias de defesa, a EMPORDEF. Surge paralelamente a definição de um amplo programa de construção de navios militares (Navios Patrulha Oceânicos, Navios de Combate à poluição, Navios Patrulha costeiros, e um Navio Polivalente Logístico), a serem construídos nos ENVC.

Pensei que, embora algo subtil, a razão fundamental de tal decisão teria sido bem entendida:  permitir que, através das construções militares, pudesse o Governo injectar no Estaleiro as verbas necessárias à sua continuidade como unidade produtiva, num quadro exigente de reestruturação e reorientação do seu mix comercial (a exemplo aliás do que havia sido feito em Espanha). Ou seja, proporcionar ajudas ao Estaleiro, ajudas essas proibidas pela União Europeia, que  um estaleiro civil não poderia nunca receber, mas que a vertente de construção militar poderia ajudar a ultrapassar. Continuidade que vinha sendo posta em causa pelos preços arrasadores oferecidos quer pela China quer pela Coreia, e que o fenómeno da globalização se encarregou de colocar aqui, às portas do Mundo mais desenvolvido, e em concorrência directa com este.

Sabemos que a receita é simples, em termos teóricos, em situações como a que os ENVC hoje enfrentam: subir na cadeia de valor, colocando no mercado produtos e soluções tecnologicamente mais evoluídos, tanto quanto possível com base em oferta nacional, fugindo assim de uma concorrência que só pode ser desastrosa. Só que, tirar partido dessas oportunidades exige preparação. Sabemos que cerca de 70% do valor de muitos navios se encontra no equipamento neles instalado. Como tal, a I&D direccionada para os avanços nesse tipo de equipamento, em parceria com outras empresas nacionais (nomeadamente da própria EMPORDEF), seria certamente frutuosa. Bom, mas I&D a sério, é algo de há muito afastado dos ENVC e que, sobretudo,  não tem constituído preocupação das administrações. À espera, certamente, de um milagre …que nunca aconteceu …

Bom, o raciocínio tido pelo Governo Português de então era simples. Colocar no Estaleiro encomendas bastante mais exigentes em termos tecnico-tecnológicos, assumindo o Estado o ónus de suportar os custos de uma transição que não seria simples, sem problemas levantados pela União Europeia relativamente ao suporte financeiro forçado a essa transição, numa unidade industrial cuja estrutura de custos não admitia a manutenção em concorrência em mercado aberto nos nichos em que a empresa se movia, e financiando a I&D necessária. Ainda por cima numa área em que se previa, e continua a prever, uma muito importante procura internacional. A dos navios militares de pequeno porte.

Infelizmente, os sucessivos gestores do Estaleiro também não souberam entender  aquilo que lhes era exigido e que, pelo menos num determinado tempo, lhes foi transmitido como “carta de comando”  pelo seu accionista (EMPORDEF), ou seja, prepararem o estaleiro para um nível de actuação num mercado muito  mais exigente, que não se esgotava nos navios militares, mas igualmente em navios comerciais de complexidade semelhante. Ao invés, foram-se dispersando por questões meramente marginais, desprezaram a inestimável ajuda (acompanhada por sacrifícios de direitos e regalias) que a Comissão de Trabalhadores e as estruturas Sindicais se dispuseram a dar.

E aí temos os casos do Lobo Marinho, dos atrasos escandalosos no programa de construções militares, do Atlântida encostado ao cais por ter sido rejeitado pelo cliente. Ainda por cima, pelo menos estas duas últimas são histórias nunca bem contadas ao país.

Veja-se o caso do Atlântida para o Governo regional dos Açores. O facto é que os ENVC foram contratados não para projectar e construir um novo navio, mas apenas para construir um navio cujo projecto era propriedade do Governo regional, que o adquirira à Rússia. E nada mais do que isso. Cedo a engenharia dos ENVC percebeu a ausência de estabilidade que o projecto do navio patenteava para navegar onde era suposto navegar, nos mares dos Açores. E foi aí que os ENVC cometeram o erro que não deviam ter cometido, tentando “remendar”  tal problema sem ter que rejeitar o projecto que o cliente lhe entregara, que certamente custara muito dinheiro. E de facto resolveu, ganhando-se em estabilidade o que o navio perderia em velocidade. Tudo com conhecimento do cliente. Daí a estranheza da rejeição do excelente navio que foi construído, mesmo considerando que os atrasos na entrega levaram a que esta se efectivasse já depois das eleições regionais e não antes como pretendido pelo Governo regional. Não fora o facto de os ENVC serem uma empresa de capital 100% público, e o caso teria certamente terminado de outra forma. O que é certo é que o Atlântida lá continua acostado em Viana do Castelo, perdendo valor a cada dia que passa.

Quanto aos Navios patrulha oceânicos, que durante anos alimentaram as páginas da comunicação social pelos “atrasos” verificados na sua construção, nunca foi dito que o projecto se iniciou com uma enorme percentagem de ausência de especificações estabilizadas, que apenas foram sendo concluídas à medida que a construção avançava (caso paradigmático foi a obrigatoriedade de aumento da dimensão do navio em alguns metros para acolher um novo tipo de motores quanto o projecto previa motores diferentes, de menor dimensão), com alterações constantes impostas pelo cliente quantas vezes obrigando a desfazer o que já tinha sido feito, com soluções de continuidade na construção esperando pelas definições do cliente. Se se tratasse de um navio civil, há muito que estaria entregue ao cliente, porque um armador dele necessita o mais cedo possível para rentabilizar o investimento feito.

A passagem da tutela dos ENVC para a Defesa, é de facto um exemplo claro de uma decisão estratégica correcta no tempo em que foi tomada, de que a deficiente execução dos diversos actores envolvidos anulou completamente os efeitos.

Ou seja, continuamos nós todos, portugueses, com o mesmo problema que, neste domínio,  tínhamos há muitos anos atrás, agora naturalmente agravado pela prática prosseguida,  que elevou a questão a um patamar provavelmente hoje de muito difícil resolução.

E é aqui que nos surge o programa da reestruturação recentemente apresentado, num timing estranho diga-se de passagem, prevendo 380 despedimentos no estaleiro.

Nestas situações olha-se sempre para o problema como se olha para um copo, meio cheio ou meio vazio. Provavelmente o número de trabalhadores do estaleiro é demasiado para o nível de vendas actual. Mas, também provavelmente, seria adequado se o estaleiro vendesse o dobro. Dirão que isso é irreal. Não é. Só é preciso que o trabalho nos ENVC seja competitivo a nível internacional. Para tal, e para além do que acima afirmei quanto à necessidade de subida na cadeia de valor, fundamental se torna o aumento da produtividade. Os ENVC sempre construíram bem e com qualidade, o que comprova que tem nos seus quadros pessoal competente e experiente. O aumento da produtividade só depende de um factor. De investimento. Um caso paradigmático é o da doca seca. Talvez porque Portugal seja um país com excelente clima, nunca se investiu na cobertura da doca seca. Só que em Viana do Castelo chove cerca de 120 dias por ano. Imaginem apenas a quebra de produtividade do trabalho sempre que chove, tendo especialmente em conta o tipo de trabalho que se desenvolve numa doca seca (soldaduras, etc). E este é apenas um, entre muitos exemplos que poderiam ser dados.

Ou seja, a produtividade é directamente dependente de investimentos que o Estado, enquanto accionista único da empresa nunca quis fazer. Preferiu sempre “varrer os problemas para debaixo do tapete”, acabando sempre por ter de assumir os custos da ausência de decisão traduzidos nos prejuízos acumulados. Diga-se de passagem que o estaleiro tem no seu activo uma série de equipamento praticamente novo e pronto a ser montado, que lhe veio de uma das contrapartidas do programa dos submarinos, o célebre estaleiro da FLENDERS.

Outra questão a merecer reflexão é o facto de que hoje um estaleiro europeu actuando stand-alone no mercado terá a vida complicada. De facto, aquilo a que se assiste é que a grande maioria dos estaleiros dispõe de subsidiárias (ou pelo menos de parcerias) em países de mão de obra barata, onde se desenvolvem os trabalhos de mão de obra intensiva e menos exigentes tecnologicamente, guardando-se a mão de obra europeia para os trabalhos que representam maior valor acrescentado e se situam em níveis mais elevados da cadeia de valor.

Outras medidas terão certamente de ser tomadas para uma completa recuperação dos ENVC, que é possível. Optou-se pela mais simples, despedir pessoal, mesmo que esse pessoal não tenha a mínima culpa dos erros cometidos e da ausência de acções que deveriam ter sido tomadas. É, além do mais, um tipo de decisão que, a prazo, nada resolve.

A não ser que exista uma agenda escondida para o destino a dar aos ENVC.

Dói muito que um país marítimo deixe de ter autonomia na sua capacidade de construção naval, sabendo que o mar, pese embora os tempos que correm, não pode deixar de ser um vector de desenvolvimento nacional. E não precisamos, para o saber, das palavras do Presidente da República sobre o assunto. Basta saber história, à mistura com algo de geopolítica, geoestratégia e, sobretudo, inteligência económica … muita inteligência económica.

General X

 

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6 Comentários

  1. Mário João Russo says:

    Excelente artigo do Sr. General X. O que mais custa é sentir que não foi por falta de Knowhow, nem devido a crises de mercado que os ENVC chegaram a esta situação difícil. De facto, há muito que a crise se instalou nos ENVC, e tem vindo a ser agravada por uma muito deficiente comunicação a todos os níveis, e por falta de uma estratégia adequada. São exactamente os mesmos motivos que vão contribuindo para a crise portuguesa. Por muita inteligência económica que tenhamos, sem uma comunicação eficiente e eficaz, e sem uma estratégia adequada será muito dificil navegar para àguas safas.
    Comandante π

  2. Oscar Mota says:

    Este artigo erstá notavelmente bem escrito e merecia um comentário mais longo. Poderemos saber quem o escreveu?
    Oscar mota

  3. Oscar Mota says:

    O artigo está notavelmente bem escrito e merecia um comentário mais longo.

    Poderemos saber quem o escreveu?
    Oscar Mota

  4. JB says:

    Parabens, artigo simples claro e sucinto no enquadramento e análise, só não entendo porque se pode ter num sitio desta importancia uma administração de mandraços incompetentes há tanto tempo.

  5. Gonçalo Fagundes Meira says:

    O presente artigo retrata com fidelidade total a situação actual dos ENVC. Podia ter ido um pouco mais longe, aflorando da sua história, mas esta também não é o mais importante para o momento actual.
    Muitos parabéns ao seu autor. Em artigos que tenho publicado, tenho dito isto mesmo.

  6. José Augusto da Silva Coelho says:

    Bom Dia…Não sei quem escreveu isto, mas quem o fez é Sério, Honesto e Profundo Conhecedor dos ENVC e EMPORDEF.
    Só lhe detecto uma Inverdade, mas não é importante pois é para consumo interno.Depois de meses em que o Nacional Jornalismo só vociferou contra os ENVC eis que se levanta uma voz desimpedida e de rara clarividência…

    É desta Gente que o País precisa… gostava que isto chegasse ao conhecimento dos Sr.s Aguiar Branco e Passos Coelho…
    Muito Obrigado Sr. General X

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