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“Guerra Económica” Ameaça as Exportações Portuguesas

Nos últimos 6 anos, a taxa de crescimento das exportações portuguesas foi superior à alemã, mas o problema do financiamento pode abrandar crescimento das exportações. A conclusão é de Manuel Caldeira Cabral, em artigo no JN. Caldeira Cabral é um economista lúcido e atento, mas os seus modelos tradicionais não lhe permitem integrar certas realidades, como a “guerra económica”. Se Caldeira Cabral introduzir na sua matriz de análise e nos seus cálculos o dispositivo conceptual da “guerra económica” (e não os modelos de uma civilizada, regulada e até gentil “livre concorrência”), verá que o problema do financiamento não só pode afectar o crescimento das exportações portuguesas (e de mais 25 estados da UE), como vai necessariamente afectá-lo e – mais e mais grave – como é esse o objectivo pretendido por quem está impor tais restrições à Europa – a Alemanha. Objectivo: eliminar concorrência e garantir a Alemanha como único grande pólo industrial europeu, reduzindo os restantes estados a “agricultura e serviços” ou mesmo (como no caso de Portugal) a “reservas de índios”. Esse é há mais de um século o projecto alemão de Europa… Basta ver os trabalhos teóricos e de sistematização, do início dos anos dez do século XX, sobre o que então chamaram de “guerra comercial”, a ver aqui.  

Financiamento pode abrandar crescimento das exportações

Nos últimos seis meses a taxa de crescimento das exportações portuguesas foi superior à da Alemanha. Nos últimos seis anos também. A ideia de que o sector exportador português tem um problema crónico de falta de competitividade fez sentido entre 2000 e 2005, quando Portugal estava entre os países com menor crescimento das exportações da UE, mas parece estar um pouco desactualizada.

Nos últimos cinco anos, as exportações portuguesas cresceram a um ritmo ligeiramente inferior ao das holandesas e a um ritmo ligeiramente superior ao das alemãs, isto é, cresceram ao mesmo ritmo que as dos dois países mais vezes referidos como os campeões da competitividade na Europa – ver quadro.

As exportações estão já a ultrapassar os níveis pré-crise em vários sectores. Isto é uma boa notícia. A evolução das exportações explica a surpresa encontrada na evolução do PIB, que afinal só está a cair 0,9%, quando havia uma quase unanimidade de que deveria cair mais de 2%, e também pode explicar os últimos dados do desemprego, que apresentaram um ligeiro recuo face ao trimestre anterior.

A quem quiser desvalorizar o conseguido pelas empresas exportadoras, é bom lembrar que, sem o contributo do aumento das exportações, o PIB poderia estar a cair 3 ou 4%, valores que implicariam certamente um forte agravamento do desemprego e que poderiam colocar em risco os objectivos de consolidação, por afectarem fortemente a evolução da receita fiscal.

No entanto, não devemos deixar que as boas notícias escondam a preocupação expressa no título. O facto de se estar a ultrapassar os níveis pré-crise implica que, para se conseguir manter o crescimento das exportações, serão necessários aumentos de capacidade e, em muitos casos, novos investimentos. Investimentos, que mesmo sendo rentáveis, poderão ter dificuldades em obter financiamento.

Garantir o financiamento da actividade exportadora deveria ser, neste momento, a principal preocupação de política económica. Sem acesso ao financiamento, muitas empresas poderão começar a ter de recusar encomendas, a adiar investimentos e a atrasar a contratação de novos trabalhadores. Tal conduziria a um inevitável abrandamento do crescimento das exportações, adiando a retoma e dificultando o próprio processo de consolidação orçamental.

O facto de Portugal estar a registar um bom crescimento das exportações não nos deve fazer abrandar os esforços de aumento da competitividade. O défice da balança corrente e de capitais diminuiu, mas permanece elevado. A correcção que não for feita por aumento de exportações terá de ser feita por reduções adicionais do consumo e das importações.

No futuro próximo, Portugal não poderá basear o seu crescimento na procura interna, pelo que terá de apostar tudo em continuar a expandir as suas exportações.

Deve assim manter as políticas de reforço da competitividade, quer com a implementação das medidas do memorando de entendimento, quer reforçando o apoio à inovação e à actividade exportadora, mantendo uma política forte de promoção de exportações e uma diplomacia económica activa.

No actual momento deve ser dada particular atenção ao financiamento das empresas exportadoras. Alguns bancos já perceberam que as empresas orientadas para o mercado externo são as que apresentam maior potencial de crescimento, estando a investir fortemente no reforço da sua área de apoio à internacionalização. Seria muito interessante que o banco do Estado tivesse objectivos claros de reforço do crédito às empresas exportadoras e mostrasse liderança nesta área.

O Governo também pode ajudar, criando novas linhas de crédito, com aval do Estado, que facilitem o acesso ao crédito das empresas exportadoras, quer para financiar a actividade, quer para investimentos de expansão da capacidade. O QREN e outros instrumentos do Estado devem continuar a privilegiar as actividades exportadoras.

Neste momento, mais do que nunca, Portugal depende do sector exportador. Este tem mostrado ser capaz de crescer, mesmo em condições adversas. Seria muito negativo se esse crescimento abrandasse por falta de financiamento.

Universidade do Minho
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